Para a busca da vida extraterrestre, os astrónomos focam-se numa faixa orbital precisa em torno das estrelas, onde as temperaturas permitem que a água permaneça líquida na superfície. Esta abordagem tem guiado o estudo dos exoplanetas, mas hoje surge um novo conceito, alargando consideravelmente o panorama.
Uma pesquisa recentemente publicada na
The Astrophysical Journal propõe uma revisão profunda destas fronteiras convencionais. O astrofísico Amri Wandel e a sua equipa utilizaram modelos climáticos para examinar como o calor se distribui em planetas com condições extremas. Os seus cálculos revelam que a presença de água líquida não depende apenas da distância à estrela, mas também de mecanismos internos ou atmosféricos capazes de aquecer zonas até então consideradas inóspitas.
Tomemos o exemplo dos planetas em rotação síncrona, que apresentam sempre a mesma face à sua estrela. Um hemisfério está em dia perpétuo, o outro numa noite eterna. Imagina-se que estes mundos são demasiado quentes de um lado e demasiado frios do outro para abrigar água líquida. Contudo, os modelos indicam que o calor acumulado do lado do dia pode ser transportado pela atmosfera para o lado da noite.
Isto permitiria manter localmente temperaturas acima de zero, e portanto água no estado líquido, mesmo em planetas que orbitam muito perto da sua estrela.
Da mesma forma, planetas situados muito além da zona habitável clássica, onde faz demasiado frio para água superficial, poderiam esconder reservatórios líquidos sob espessas camadas de gelo. O calor interno destes mundos ou o derretimento na base das calotas polares poderiam criar lagos sob a superfície gelada.
Estes ambientes isolados ofereceriam condições estáveis, protegidas das radiações estelares, e multiplicariam o número de candidatos potenciais para abrigar formas de vida.
Esta visão alargada encontra um eco interessante com as últimas observações do telescópio espacial James Webb. Este detectou vapor de água na atmosfera de alguns exoplanetas quentes em órbita de anãs vermelhas, mundos que os antigos modelos colocavam fora da zona habitável. Estas descobertas reforçam a ideia de que a água pode persistir em condições que antes se julgavam demasiado extremas.
A zona habitável tradicional é representada pela faixa laranja. As elipses mostram as extensões possíveis desta zona segundo o novo estudo, em função da distância à estrela e do seu tipo.
Crédito: Amri Wandel
Ao repensar os critérios da zona habitável, este estudo incentiva assim a alargar o campo das investigações. Mundos antes descartados poderiam finalmente merecer um exame atento. Isto não garante a presença de vida, mas significa que os lugares onde a procurar são provavelmente muito mais numerosos do que se pensava.
Os oceanos subglaciais no Sistema Solar e além
O princípio segundo o qual a água líquida pode existir sob uma espessa camada de gelo encontra ilustrações no nosso próprio Sistema Solar. Luas como Europa, à volta de Júpiter, ou Encélado, à volta de Saturno, são exemplos marcantes. O calor produzido pelas forças de maré, devidas à atração gravitacional do planeta gigante em torno do qual orbitam, mantém os seus oceanos interiores no estado líquido sob uma crosta de gelo.
Este mecanismo pode concernir muitos exoplanetas frios situados longe da sua estrela. Mesmo se a superfície está gelada, o calor interno proveniente da formação do planeta ou da desintegração de elementos radioativos no seu núcleo pode ser suficiente para derreter o gelo em profundidade. Poderiam assim formar-se vastos reservatórios de água líquida, isolados do ambiente estelar exterior.
Estes oceanos subglaciais representam meios potencialmente estáveis durante períodos muito longos. Protegidos das radiações estelares nocivas e das variações extremas de temperatura, poderiam mesmo abrigar, perto de eventuais fontes hidrotermais, as condições propícias ao aparecimento de reações biológicas.
A busca de tais mundos baseia-se em técnicas indiretas, como a análise da composição da superfície. A deteção de géiseres de vapor de água, semelhantes aos observados em Encélado, constituiria assim um indício maior da presença de um tal oceano escondido num exoplaneta distante.
Fonte: The Astrophysical Journal