As vacinas contra a gripe atuais previnem principalmente a infecção nos indivíduos, mas novas pesquisas conduzidas pela Universidade de Michigan e pelo Instituto Pasteur sugerem que a integração de anticorpos induzidos pela infecção poderia permitir o desenvolvimento de vacinas mais eficazes, que também reduziriam a transmissão interpessoal.
O vírus da gripe possui duas principais proteínas de superfície: uma (chamada HA) permite que o vírus se ligue às células e as infecte, a outra (chamada NA) permite que ele escape e se espalhe. As vacinas atuais visam principalmente a proteína HA. Os pesquisadores mostram que, ao reforçar também as defesas contra a proteína NA, se reduziria não apenas a infecção nas pessoas vacinadas, mas também a transmissão da gripe de uma pessoa para outra.
Imagem ilustrativa Pixabay
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A NA é uma parte do vírus da gripe relativamente negligenciada na concepção das vacinas, enquanto visar essa proteína permitiria reduzir o risco de infecção, mas também a contagiosidade de uma pessoa infectada", declarou
Aubree Gordon, coautora principal do estudo e diretora do Michigan Center for Infectious Disease Threats and Pandemic Preparedness.
O estudo, publicado na revista
Nature Communications, foi financiado pelos National Institutes of Health (NIH) dos Estados Unidos. Ele surge no momento em que se alerta para uma atividade gripal muito forte futura e em que já se registram as primeiras mortes da temporada 2025-2026 no Hemisfério Norte. A gripe infecta mais de um bilhão de pessoas e mata cerca de 650 mil por ano no mundo. Além disso, a perda de produtividade e as hospitalizações relacionadas à gripe impõem um pesado fardo econômico.
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Modificar as vacinas para integrar anticorpos contra a NA reforça as defesas, o que é particularmente importante para lactentes, pessoas imunocomprometidas e aquelas incapazes de desenvolver uma forte resposta vacinal", especificou Aubree Gordon, epidemiologista da School of Public Health. "
Esta modificação também poderia ser crucial em caso de uma pandemia de gripe."
Aubree Gordon co-liderou uma equipe de pesquisa multinacional que acompanhou 171 domicílios nicaraguenses e seus 664 contatos durante três temporadas de gripe: 2014, 2016 e 2017. Quase todos os participantes nunca haviam sido vacinados, o que permitiu aos pesquisadores observar os padrões de transmissão principalmente influenciados pelos anticorpos induzidos pela infecção.
Os cientistas identificaram os anticorpos mais eficazes na limitação da propagação graças a análises de sangue, testes virológicos e poderosas modelagens matemáticas.
Simon Cauchemez, chefe da unidade de Modelagem Matemática de Doenças Infecciosas do Instituto Pasteur, é coautor principal do estudo. Ele explicou que os dados detalhados sobre os domicílios e os métodos de modelagem permitiram aos cientistas determinar quais anticorpos eram mais eficazes para impedir que uma pessoa infectada transmitisse a gripe para seus contatos.
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Compreender os fatores que influenciam a disseminação da gripe é primordial para elaborar melhores estratégias de contenção, mas muitas vezes se mostra complexo. Este estudo nos trouxe esses esclarecimentos graças à análise de dados muito detalhados, documentando a transmissão da gripe dentro de domicílios com o uso de técnicas de modelagem de ponta", indicou Simon Cauchemez.
E os autores concluíram: "
O estudo da imunidade induzida pela infecção nos permite identificar as respostas de anticorpos mais protetoras e traduzir essas descobertas em vacinas melhoradas, oferecendo uma proteção mais forte e duradoura".
Fonte: Instituto Pasteur