Fragmentos vítreos, recentemente descobertos no Brasil, testemunham um evento importante ocorrido há vários milhões de anos.
Chamados tectitos, estes fragmentos se formam quando um objeto vindo do espaço atinge a Terra com uma força colossal, derretendo a rocha na superfície. O material fundido é então ejetado na atmosfera, onde esfria rapidamente, dando origem a esses vidros. Até o momento, apenas cinco campos principais de tectitos eram reconhecidos globalmente, o que torna a descoberta brasileira particularmente notável.
Visão artística de um asteroide colidindo com a Terra.
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Batizadas de geraisitas em referência ao estado de Minas Gerais onde foram inicialmente encontradas, estas amostras foram objeto de um estudo por uma equipe liderada por Álvaro Penteado Crósta, geólogo da Universidade Estadual de Campinas. Esses resultados são detalhados na revista
Geology. Identificadas inicialmente em três municípios, as geraisitas foram posteriormente localizadas em outros estados, cobrindo agora mais de 900 quilômetros, uma extensão que indica um impacto de grande escala.
A olho nu, esses fragmentos aparecem negros e opacos, mas tornam-se translúcidos e assumem uma tonalidade cinza-esverdeada sob luz intensa. Sua superfície escura é salpicada por pequenas cavidades, vestígios de bolhas de gás formadas durante o resfriamento rápido na atmosfera. Essas características físicas as distinguem de outros vidros naturais, como as moldavitas europeias, frequentemente usadas em joalheria.
A datação dessas geraisitas indica que o impacto ocorreu há cerca de 6,3 milhões de anos, próximo ao final da época do Mioceno. Além disso, as análises químicas mostram baixo teor de água, típico dos tectitos, e uma composição rica em sílica, com flutuações de elementos traço como cromo e níquel. Essas pistas direcionam as pesquisas para uma rocha de origem antiga, provavelmente localizada no cráton de São Francisco.
Nenhuma cratera associada foi ainda identificada, uma situação frequente para este tipo de eventos. Para estimar a energia liberada e os parâmetros do impacto, os cientistas usam modelos matemáticos. Esta descoberta preenche assim uma lacuna na história geológica da América do Sul e sugere que os tectitos podem ser mais comuns do que se imaginava, sendo por vezes confundidos com vidro comum.
Exemplos de geraisitas em suas diferentes formas, nomeadas em referência ao estado de Minas Gerais.
Crédito: Álvaro Penteado Crósta/IG-UNICAMP
Como se formam os tectitos durante um impacto cósmico?
Os tectitos aparecem quando objetos como asteroides ou cometas colidem com a Terra em alta velocidade. A energia liberada é tão intensa que vaporiza e derrete instantaneamente a rocha na superfície. Este material fundido é lançado a grande altitude na atmosfera, onde sofre um resfriamento rápido em alguns segundos ou minutos.
Durante este percurso aéreo, as gotículas de rocha fundida adotam formas aerodinâmicas diversas, como esferas, gotas ou discos. A velocidade e o ângulo de impacto influenciam diretamente a distância percorrida e a distribuição dos fragmentos no solo. Este processo explica por que os tectitos são frequentemente encontrados dispersos por vastas áreas, formando o que se chama de campos de dispersão.
A composição química dos tectitos reflete a da rocha terrestre fundida, mas com modificações devido às altas temperaturas. Geralmente são pobres em água, o que os diferencia de vidros vulcânicos como a obsidiana. Isto constitui um indício importante para identificar sua origem extraterrestre, pois os impactos geram condições extremas que eliminam a umidade.
Fonte: Geology