Adrien - Quinta-feira 14 Maio 2026

📜 Tábuas de 4 mil anos falam de magia e... burocracia

No fundo das reservas do Museu Nacional da Dinamérica dormiam tábuas de argila milenares carregadas de gravuras.

Hoje, estes vestígios da escrita cuneiforme revelam uma surpreendente dualidade: de um lado, reis usando feitiços para consolidar sua autoridade; do outro, modestos contadores registrando entregas de cerveja. Este contraste revela como as primeiras sociedades organizadas já misturavam o sagrado ao cotidiano.

Uma equipe de pesquisadores do museu e da Universidade de Copenhague acaba de decifrar, analisar e digitalizar todo esse conjunto no âmbito do projeto "Hidden Treasures". Entre os textos, encontram-se receitas médicas, cartas pessoais, rituais mágicos e listas de reis. Esta diversidade revela a extensão das atividades das civilizações mesopotâmicas, da Síria ao atual Iraque.


Crédito: Troels Pank Arbøll


As tábuas provenientes da cidade síria de Hama, escavada nos anos 1930, são particularmente raras. A maioria foi levada pelos assírios após a destruição da cidade em 720 a.C., mas algumas permaneceram no local. Uma delas contém um ritual "antifeitiçaria" destinado a proteger o rei de infortúnios, como a instabilidade política. Uma prática que durava toda a noite, com a queima de figurinhas de cera e argila.

Este ritual estava intimamente ligado à corte assíria, o que surpreende os arqueólogos: como uma tábua assim pôde chegar tão longe do centro do poder? Hama ficava na periferia do império, longe das capitais culturais como Babilônia. A descoberta mostra que essas crenças mágicas circulavam muito além dos círculos reais, até os confins dos territórios controlados.

A coleção também contém uma cópia de uma famosa lista real, remontando a uma época anterior ao Dilúvio. Este documento menciona soberanos lendários e históricos, incluindo o famoso Gilgamesh. Para os pesquisadores, trata-se de uma prova adicional de que esse herói épico pode ter existido realmente. O museu dinamarquês desconhecia possuir este texto raro.

Outras tábuas, provenientes das escavações de Tell Shemshara no Iraque, revelam o cotidiano administrativo. Encontra-se ali correspondência entre um chefe local e um rei assírio por volta de 1800 a.C., bem como listas de bens e de pessoal. Um dos documentos mais surpreendentes é um simples recibo de cerveja, prova de que a burocracia já existia em escala muito concreta.

Estas descobertas mostram que a escrita cuneiforme, surgida há cerca de 5.200 anos, teve um papel central na organização das primeiras cidades-Estado. Graças a ela, os governantes podiam governar, registrar impostos, mas também consignar suas crenças e rituais. A digitalização dessas tábuas permite hoje preservar e estudar uma faceta pouco conhecida da história humana.

Fonte: Hidden Treasures: The National Museum's Cuneiform Collection
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