Durante décadas, os astrônomos examinaram o céu em busca de sinais de rádio vindos de outros planetas. Até agora, nenhuma mensagem foi captada. Mas um novo estudo publicado em
The Astrophysical Journal propõe uma explicação de um novo tipo: o clima espacial ao redor de exoplanetas pode embaralhar esses sinais, tornando-os indetectáveis.
Essa constatação oferece uma pista para responder ao famoso paradoxo de Fermi: por que, apesar da imensidão do cosmos e da multitude de planetas potencialmente habitáveis, ainda não detectamos nada?
Para testar essa hipótese, os pesquisadores analisaram um tipo particular de sinais: os sinais de banda muito estreita. Essas emissões de rádio, concentradas em uma frequência precisa, não ocorrem naturalmente e denunciariam uma origem tecnológica. Mas para detectá-las, o sinal precisa permanecer nítido. No entanto, de acordo com o estudo, o meio interplanetário, agitado pelas erupções da estrela hospedeira, poderia espalhar esses sinais por uma faixa mais ampla de frequências, enfraquecendo-os e fazendo-os cair abaixo do limiar de detecção.
Um sinal de rádio extraterrestre pode começar como uma nota pura (à esquerda, em branco), mas ser espalhado pelos ventos de plasma da estrela em um sinal mais amplo e mais fraco (à direita, em verde). Este estudo indica que os astrônomos podem estar perdendo sinais ao procurar principalmente a forma branca e fina, em vez da forma verde e espalhada.
Crédito: Vishal Gajjar
Os cientistas analisaram como as comunicações com sondas espaciais (Mariner IV, Viking) foram afetadas pelo clima espacial do nosso Sol. Com base nesses dados, modelaram o efeito de estrelas do tipo M, as mais numerosas na Via Láctea, sobre possíveis sinais vindos de seus planetas. Resultado: essas estrelas produzem um vento de partículas carregadas que dispersa os sinais, tornando-os ainda mais difíceis de captar.
A equipe propõe um método para estimar o alargamento de um sinal em função de sua frequência e do tipo de estrela. Essa ferramenta pode ajudar futuras pesquisas a refinar seus critérios. Um astrônomo externo ao estudo, Michael Garrett, elogia essa abordagem concreta e baseada em medidas reais. No entanto, ele lembra que a busca por sinais de rádio estreitos é apenas uma pista entre outras para detectar uma civilização avançada.
Andrew Siemion, diretor do programa Breakthrough Listen, observa que é a primeira vez que se estuda o impacto do ambiente espacial ao redor de exoplanetas na detectabilidade. Segundo ele, este trabalho oferece um mecanismo concreto para validar a origem extraterrestre de um sinal potencial. Os autores recomendam que futuros observatórios, como o telescópio SKA-Low, levem em conta esse efeito de dispersão para otimizar suas buscas.
Assim, o paradoxo de Fermi pode encontrar uma resposta parcial: talvez não seja que ninguém emita, mas que nossos métodos de busca ainda não estão adaptados à realidade física desses sinais. Como escrevem os pesquisadores, o silêncio observado não é necessariamente a prova da ausência de emissores, mas o reflexo de nossos limites de detecção diante de sinais cuja forma não corresponde ao que esperamos.
Sinais de banda estreita
Para distinguir um sinal artificial de um ruído natural, os astrônomos procuram sinais chamados "de banda estreita". Trata-se de emissões de rádio concentradas em uma faixa de frequências muito restrita, às vezes de apenas alguns hertz. Na natureza, tais sinais não aparecem espontaneamente. Os pulsares, nuvens de gás ou fenômenos estelares emitem em uma ampla gama de frequências. Se um receptor captar um pico muito fino e estável, é um bom candidato para uma origem tecnológica.
No entanto, como mostra o estudo, esse sinal pode ser "alargado" por sua viagem através do plasma interplanetário. As partículas carregadas desviam as ondas de rádio, espalhando-as por vários hertz. Com isso, o pico tão característico se achata e se assemelha a um sinal natural. Os futuros algoritmos de detecção deverão, portanto, integrar essa possível deformação.
Fonte: The Astrophysical Journal