Adrien - Sexta-feira 27 Março 2026

🔭 Quando asteroides trocam matéria à distância

Os asteroides às vezes reservam comportamentos inesperados. Imagens recentes mostram que alguns deles trocam suavemente fragmentos, em uma lenta valsa cósmica.

Em 2022, a sonda espacial DART colidiu deliberadamente com a lua-asteroide Dimorphos, parte do sistema binário com Didymos. Pouco antes do impacto, as câmeras capturaram imagens detalhadas da superfície. Esses instantâneos, inicialmente analisados para estudar o desvio, revelaram padrões estranhos em forma de leque que intrigaram os cientistas.


Esquerda: Dimorphos vista 8,55 segundos antes do impacto da DART. Direita: A mesma imagem após correção das condições de iluminação, revelando um padrão de estrias em leque colorido.
Crédito: NASA/JHU-APL/UMD

A equipe de pesquisa, liderada por Jessica Sunshine da Universidade de Maryland, inicialmente suspeitou de anomalias técnicas. Aplicando métodos avançados de processamento de imagem para eliminar sombras projetadas por rochas e ajustar a iluminação, as estrias se tornaram mais visíveis. Esse esclarecimento confirmou que eram estruturas reais, e não artefatos. Os cientistas puderam então analisar sua formação, descobrindo que os detritos vinham do asteroide companheiro Didymos.


Essas estrias resultam de impactos muito lentos, a velocidades de cerca de 30 centímetros por segundo, onde detritos de Didymos se depositam suavemente em Dimorphos. Em vez de criar crateras, eles formam depósitos em leque, concentrados principalmente perto do equador. Essa distribuição corresponde às previsões modeladas sobre a trajetória dos materiais ejetados, mostrando um transporte de matéria entre os dois asteroides por longos períodos, talvez milhões de anos.

Esse processo está ligado ao efeito YORP, um fenômeno no qual a absorção e reemissão da luz solar por um asteroide gera um impulso térmico. Essa força pode acelerar progressivamente sua rotação, até liberar materiais da superfície. Observações similares pela missão Lucy da NASA nos asteroides Dinkinesh e Selam mostram cristas equatoriais, indicando que essa migração de matéria é comum em pequenos corpos celestes do Sistema Solar.

Além da troca de detritos, a DART também modificou a órbita de Dimorphos ao redor de Didymos, e até mesmo ligeiramente a do sistema binário ao redor do Sol. Essas mudanças, embora mínimas, demonstram a eficácia das técnicas de desvio para a defesa planetária. Elas ajudam a prever como os asteroides poderiam ser desviados em caso de uma ameaça futura à Terra, como notam pesquisadores na Science Advances.


Ilustração artística da sonda DART da NASA no sistema binário de Didymos.
Crédito: NASA/Johns Hopkins APL/Steve Gribben

Para aprofundar essas descobertas, a missão Hera da Agência Espacial Europeia é esperada no sistema Dimorphos-Didymos em dezembro próximo. Ela examinará de perto as transformações pós-impacto, verificará a persistência das estrias e buscará novos padrões. Esses dados serão valiosos para melhorar os modelos sobre a evolução dos asteroides e reforçar as estratégias de proteção do nosso planeta, baseando-se nas lições da DART.

O efeito YORP



O efeito YORP, acrônimo para Yarkovsky-O'Keefe-Radzievskii-Paddack, é um fenômeno físico que influencia a rotação de pequenos asteroides. Ele ocorre quando esses corpos absorvem a luz do Sol e a reemitem na forma de radiação térmica. Essa reemissão não é uniforme, criando uma força minúscula, porém constante, que pode modificar a velocidade de rotação do asteroide em escalas de tempo longas, frequentemente milhares ou milhões de anos.

Com o tempo, essa aceleração rotacional pode se tornar significativa. Para asteroides de pequeno tamanho, ela pode fazê-los girar mais rápido, até que a força centrífuga supere a gravidade da superfície. Quando isso acontece, materiais como rochas ou poeira podem ser ejetados para o espaço ao redor, contribuindo para uma lenta remodelação de sua forma e superfície.

Essas ejeções explicam por que alguns asteroides desenvolvem características como cristas equatoriais ou formas alongadas. No caso de sistemas binários, os detritos liberados por um asteroide podem migrar para seu companheiro, como observado com Dimorphos e Didymos. Esse processo mostra como os asteroides interagem dinamicamente com seu ambiente.

Entender o efeito YORP é importante para missões espaciais e defesa planetária. Ele ajuda os cientistas a prever como os asteroides evoluem e permite determinar os riscos potenciais para a Terra, integrando esses mecanismos nos modelos de trajetória e desvio.

Fonte: The Planetary Science Journal
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