As apneias do sono afetam cerca de um bilhão de pessoas em todo o mundo e causam episódios repetidos de falta de oxigênio durante a noite, chamados de hipóxia intermitente.
Um estudo realizado por cientistas da Universidade Grenoble Alpes, do Inserm e do CHU Grenoble Alpes, publicado hoje na revista
Science Advances, mostra que esses episódios reorganizam o relógio biológico do fígado, alterando os ritmos diários de sua atividade metabólica.
Esses resultados lançam luz sobre um aspecto até agora pouco conhecido da doença e podem ajudar a direcionar melhor o momento ideal de administração dos tratamentos para melhorar sua eficácia.
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Se as consequências patológicas da hipóxia intermitente nas apneias do sono são bem documentadas, seu impacto sobre os ritmos biológicos do organismo, regidos pelo relógio circadiano, ainda permanece pouco explorado.
Neste estudo, os cientistas utilizaram um modelo murino de hipóxia intermitente crônica para analisar, ao longo de todo o ciclo dia-noite, os efeitos desse estresse respiratório sobre o organismo. Ao se concentrarem no fígado, órgão central da regulação energética, eles combinaram abordagens transcriptômicas, metabolômicas e fisiológicas para acompanhar as adaptações da atividade metabólica hepática ao longo do tempo.
Os resultados mostram que a hipóxia intermitente não apenas altera algumas vias energéticas importantes orquestradas pelo fígado, como o metabolismo da glicose e dos lipídios, mas também reprograma profundamente sua organização circadiana. Por exemplo, a análise metabolômica revela que cerca da metade dos metabólitos hepáticos apresenta um ritmo de 24 horas e que mais de um terço deles adquire um novo ritmo sob hipóxia intermitente.
Essa redistribuição dos ritmos metabólicos ao longo do dia reflete uma verdadeira reprogramação temporal da atividade hepática e destaca uma dimensão até agora subestimada das apneias do sono.
Esses trabalhos abrem, assim, novas perspectivas na cronomedicina. Ao reprogramar os ritmos metabólicos do fígado, a hipóxia intermitente pode modificar a resposta do organismo a certos medicamentos, principalmente àqueles que atuam sobre a glicemia ou o metabolismo lipídico.
Sua eficácia poderia, portanto, variar de acordo com a hora do dia, com momentos ótimos de administração diferentes daqueles observados em pessoas que não apresentam esse distúrbio respiratório. Isso ressalta o interesse de integrar a dimensão temporal no tratamento das apneias do sono.
Fonte: Inserm