Como podemos formar novas frases a cada conversa, sem esforço aparente? Uma questão que há muito ocupa os cientistas agora recebe uma resposta original. Trabalhos recentes propõem que nosso domínio da linguagem se basearia em processos mais imediatos do que as teorias clássicas sugeriam.
Pesquisadores em psicologia, Morten H. Christiansen e Yngwie A. Nielsen, exploraram essa pista em um estudo publicado na
Nature Human Behaviour. Seus trabalhos questionam a ideia de que a gramática hierárquica é essencial para a linguagem. Em vez disso, eles propõem que usamos comumente sequências de palavras pré-montadas, como peças de construção reutilizáveis.
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Tradicionalmente, a estrutura das frases é comparada a uma árvore com ramos. Para ilustrar sua abordagem, os autores propõem uma analogia diferente: imagine blocos LEGO que combinamos para criar formas. Da mesma forma, nossa mente montaria grupos de palavras frequentes, como 'no meio de' ou 'pergunto-me se', sem recorrer a regras abstratas muito elaboradas. Esses elementos servem então de base para construir enunciados completos, um pouco como usar módulos prontos para uso.
Chamadas não constituintes, essas sequências não correspondem às unidades gramaticais clássicas. No entanto, são onipresentes em nossas trocas. Os cientistas observaram que até mesmo esses padrões lineares influenciam nossa compreensão, indicando que fazem parte integrante de nosso conhecimento intuitivo da língua. Consequentemente, essa observação enriquece nossa visão de como dominamos a fala no dia a dia.
Para apoiar sua hipótese, a equipe realizou experimentos de rastreamento ocular e analisou conversas telefônicas. Conclui-se que, quando encontramos uma sequência de palavras já ouvida, a processamos mais rapidamente. Esse efeito de priming mostra que esses padrões são armazenados na memória e facilitam a produção da linguagem. Na realidade, nosso cérebro se apoia em repetições comuns para ganhar eficiência.
Essa perspectiva abre caminhos para entender como as crianças aprendem a falar ou como os adultos adquirem uma nova língua. Se a sintaxe hierárquica não é indispensável, a fronteira entre a linguagem humana e os sistemas de comunicação animal pode ser menos marcada do que se pensava. Os pesquisadores acreditam que essas descobertas podem inspirar novas abordagens pedagógicas.
Assim, este estudo convida a reconsiderar os fundamentos de nossa faculdade linguística. Mostra que a simplicidade dos padrões de uso comum desempenha um papel-chave, complementando as teorias gramaticais estabelecidas.
Fonte: Nature Human Behaviour