A perturbação de hiperatividade com défice de atenção (PHDA), que afeta cerca de 2,5% dos adultos, continua a ser pouco compreendida a nível biológico.
Um estudo internacional realizado por cientistas do Inserm no Instituto do Cérebro (Inserm/CNRS/Universidade Sorbonne) e da Universidade Monash, na Austrália, sugere que alguns sintomas podem ser explicados pela intrusão de ondas cerebrais lentas, habitualmente associadas ao sono, durante a vigília. Estas ondas lentas poderão, assim, constituir um biomarcador potencial da PHDA. A longo prazo, estes resultados poderão orientar novas estratégias terapêuticas, nomeadamente atuando na qualidade do sono e na regulação da vigilância.
Esquecimentos frequentes, erros de desatenção ou dificuldades em manter a atenção e resistir a distrações: a perturbação de hiperatividade com défice de atenção (PHDA) afeta cerca de 2,5% dos adultos, mas os seus mecanismos biológicos continuam a ser pouco compreendidos.
Num estudo internacional publicado a 16 de março no
Journal of Neuroscience, cientistas do Inserm no Instituto do Cérebro (Inserm/CNRS/Universidade Sorbonne) e da Universidade Monash, na Austrália, sugerem que os sintomas desta perturbação podem estar ligados à intrusão de ondas lentas, habitualmente observadas durante o sono, na vigília. Este fenómeno, chamado "sono local", poderá oferecer uma explicação para as quedas de atenção e a sonolência frequentemente observadas em pessoas com PHDA.
Para chegar a estes resultados, os cientistas compararam a atividade cerebral de 32 adultos com PHDA, sob medicação, com a de 31 adultos neurotípicos, enquanto os participantes realizavam uma tarefa que exigia atenção sustentada.
Uma densidade de ondas lentas mais elevada em adultos com PHDA
Resultado:
"Os adultos com PHDA apresentam uma densidade significativamente mais elevada de ondas lentas, habitualmente observadas durante o sono profundo. Ora, estas ondas não são anódinas: quanto maior for a sua densidade, mais os participantes cometem erros de desatenção e apresentam tempos de reação mais lentos ou mais variáveis", resume Thomas Andrillon, investigador do Inserm na
DreamTeam do Instituto do Cérebro, e último autor do estudo.
Os participantes com PHDA relatam também mais episódios de "devaneio mental"
(mind wandering) e de "branco mental"
(mind blanking),
dois estados diretamente correlacionados com estas intrusões de sono local. Por outro lado, o nível de fadiga sentido pelos participantes aumenta à medida que estas ondas lentas se acumulam durante o esforço atencional.
"A intrusão de ondas do sono é um fenómeno perfeitamente normal. Pense numa longa corrida: ao fim de algum tempo, o cansaço físico obriga-nos a fazer uma pausa. É a mesma coisa com a fadiga mental: depois de um dia passado acordado ou depois de uma noite mal dormida, o cérebro também faz pausas sob a forma de ondas lentas. Estes breves momentos de inatividade cerebral ocorrem em toda a gente", explica o investigador.
Para os cientistas, estas ondas lentas poderão, assim, constituir uma pista de explicação que liga o diagnóstico de PHDA aos sintomas comportamentais observados no dia a dia. Esta descoberta sugere, de facto, que a PHDA poderá ser, pelo menos em parte, uma perturbação da regulação da vigília e da vigilância
. "Estas ondas de sono local poderão tornar-se um biomarcador chave para o diagnóstico", avança Thomas Andrillon.
Estes resultados poderão também orientar o desenvolvimento de novas estratégias terapêuticas, sejam farmacológicas ou não farmacológicas, nomeadamente intervenções que visem melhorar a qualidade do sono ou estabilizar os mecanismos de vigilância.
"
Em pessoas neurotípicas, algumas pesquisas mostraram, por exemplo, que a estimulação auditiva durante o sono pode reforçar as ondas lentas noturnas, o que poderá reduzir o aparecimento de uma atividade cerebral próxima do sono durante a vigília no dia seguinte. Uma próxima etapa consistirá em determinar se esta abordagem poderá também diminuir estas intrusões de sono local em pessoas com PHDA", conclui Thomas Andrillon.
Fonte: Inserm