A magnetosfera da Terra é uma bolha relativamente redonda e simétrica, quase perfeitamente alinhada com o eixo de rotação do planeta. A de Saturno, por outro lado, está longe de ser tão bem estruturada. Ao analisar dados da sonda Cassini, pesquisadores descobriram que essa envoltória protetora está fortemente deformada e descentrada.
Uma equipe internacional examinou seis anos de observações, com o objetivo de localizar com precisão uma região chamada de "cusp". É neste local que as linhas do campo magnético mergulham em direção aos polos, canalizando as partículas carregadas do vento solar para a atmosfera do planeta. A observação deles é clara: esse ponto de entrada das linhas de campo não está de forma alguma alinhado com o eixo de rotação de Saturno. Visto do Sol, ele está sistematicamente deslocado para a direita.
Diagrama comparando a posição do "cusp" magnético de Saturno com o da Terra.
Crédito: SUSTech
Dois fenômenos parecem atuar em conjunto para explicar essa configuração. Por um lado, Saturno gira a uma velocidade excepcional, completando uma rotação completa em pouco mais de dez horas. Por outro, ele se move em um plasma denso, um gás ionizado do qual uma boa parte provém dos gigantescos gêiseres de sua lua gelada Encélado. A combinação dessa rotação rápida com esse ambiente carregado estica e deforma as linhas do campo magnético, arrastando-as para o lado.
Esta descoberta apresenta um interesse maior, notadamente devido à atenção dada a Encélado. Este satélite possui um oceano de água líquida sob sua superfície gelada, cujas plumas escapam para o espaço. E são essas plumas que explicariam, em parte, a forma da magnetosfera de Saturno.
Encélado está entre os lugares mais promissores do Sistema Solar para buscar sinais de habitabilidade, tornando-a um destino prioritário para uma futura missão espacial. Um vínculo agora está estabelecido entre a forma da magnetosfera do planeta e a presença de um satélite potencialmente habitável.
Esses mecanismos identificados em torno de Saturno podem ser transponíveis a outros planetas. Seus trabalhos, publicados na
Nature Communications, levam a crer que a interação entre o vento solar e a magnetosfera pode obedecer a regras fundamentais. Este estudo fornece um ponto de referência útil para compreender melhor os ambientes dos gigantes gasosos, incluindo seus satélites, estejam eles em nosso sistema ou em órbita ao redor de outras estrelas.
Para obter esses resultados, os cientistas exploraram as medidas de dois instrumentos da sonda Cassini, com 67 passagens distintas pela zona do cusp entre 2004 e 2010. Esses dados permitiram modelar o campo magnético global de Saturno.
Fonte: Nature Communications