Adrien - Quarta-feira 10 Junho 2026

💧 Lua Europa: as provas de plumas de água postas em questão

Desde 2014, a ideia de que plumas de vapor de água jorram da superfície de Europa, a lua gelada de Júpiter, faz sonhar os astrônomos. No entanto, uma nova análise dos dados do telescópio espacial Hubble lança dúvidas: essas erupções tão esperadas podem nunca ter existido. Ainda assim, a perspectiva de um oceano escondido sob o gelo continua sendo uma das mais promissoras para a busca de vida. Os próprios pesquisadores, que inicialmente anunciaram essa descoberta, são os responsáveis por essa reavaliação.

Europa é um alvo de escolha para quem busca ambientes habitáveis em outros lugares. Sob sua crosta de gelo encontra-se um oceano global de água salgada, que pode conter os ingredientes necessários para a vida. Assim, a possível presença de plumas era muito empolgante: elas permitiriam amostrar esse oceano a partir do espaço. Além disso, compostos orgânicos complexos detectados em sua superfície reforçam o interesse por essa lua. Determinar a natureza dessas erupções é, portanto, de grande importância para avaliar seu potencial de habitabilidade.


A superfície de Europa mostra sinais de atividade geológica, com sal e dióxido de carbono que poderiam vir de um oceano subterrâneo.
Crédito: NASA/ESA/K. Retherford/SWRI


Os cientistas que haviam anunciado a descoberta em 2014 revisam hoje suas conclusões. Reexaminando quatorze anos de observações do Hubble, eles reduziram o nível de confiança. De 99,9% de certeza, passou para menos de 90%. Um limite insuficiente para afirmar a existência dessas plumas com segurança. Essa reanálise foi conduzida por uma equipe liderada por Lorenz Roth do Instituto Real de Tecnologia da Suécia, e os resultados foram publicados na revista Astronomy & Astrophysics. Os pesquisadores estimam que a margem de erro agora é grande demais para decidir.

O problema vinha da maneira como o Hubble mede as emissões luminosas. Os pesquisadores se interessavam por um comprimento de onda ultravioleta chamado Lyman-alfa. Mas o posicionamento de Europa nas imagens era impreciso por alguns pixels, o que podia criar sinais parasitas. Esses artefatos podem ter sido interpretados erroneamente como plumas. Kurt Retherford, do Southwest Research Institute, explica que o menor deslocamento de um ou dois pixels podia falsear a interpretação. Assim, as famosas erupções podem ser apenas artefatos de medição.

Apesar dessa dúvida, os cientistas não descartam totalmente a possibilidade dessas erupções. Outras luas geladas, como Encélado ao redor de Saturno, apresentam plumas bem atestadas. Além disso, Io, outra lua de Júpiter, ejeta enxofre. Europa pode ainda surpreender, mas será necessário aguardar novas observações. As semelhanças geológicas entre essas luas sugerem que Europa também pode experimentar uma atividade semelhante. No entanto, sem prova direta, é impossível afirmá-lo. A equipe planeja usar outros instrumentos, como o telescópio espacial James Webb, para tentar confirmar ou descartar a presença dessas plumas.


A existência de plumas de vapor de água em Europa, inicialmente relatada graças às observações do Hubble em 2012, é hoje posta em dúvida.
Crédito: NASA


A resposta virá talvez em 2030 com a chegada da missão Europa Clipper da NASA. Essa sonda estudará a lua de perto e poderá detectar eventuais atividades. Enquanto isso, os astrônomos permanecem cautelosos e continuam analisando os dados com ferramentas mais precisas. A Europa Clipper realizará vários sobrevoos próximos e poderá medir diretamente a composição da tênue atmosfera da lua. Essa missão representa uma esperança para resolver o debate sobre as plumas e explorar mais detalhadamente o oceano subterrâneo. Até lá, a comunidade científica permanece dividida.

Os oceanos sob o gelo


Muitas luas do Sistema Solar possuem oceanos escondidos sob uma crosta de gelo. Europa, Encélado, Ganimedes e Titã são mundos onde a água líquida pode existir. Esses oceanos são mantidos no estado líquido pelo calor interno, produzido pelas forças de maré exercidas por seu planeta-mãe. Para os astrobiólogos, esses ambientes são particularmente interessantes porque a água é um ingrediente essencial para a vida como a conhecemos.

A presença de um oceano global sob o gelo de Europa foi deduzida das medidas do campo magnético e das observações de sua superfície. Estima-se que esse oceano possa conter mais água do que todos os oceanos terrestres juntos. Além disso, interações entre a água e o fundo rochoso podem fornecer os elementos químicos necessários para a vida. É por isso que Europa é um alvo prioritário para as missões de exploração.

As plumas de vapor, se existirem, ofereceriam uma visão única desse oceano sem ter que perfurar o gelo. Analisando sua composição, os cientistas poderiam determinar se o oceano contém compostos orgânicos ou outros sinais de potencial atividade biológica. Infelizmente, sua existência permanece incerta, como mostra este novo estudo.

Os limites das observações espaciais



Telescópios como o Hubble são instrumentos poderosos, mas têm suas limitações. Para detectar fenômenos tênues como plumas em Europa, é necessário medir sinais muito fracos, imersos no ruído de fundo. A resolução espacial e a sensibilidade são frequentemente insuficientes para distinguir um sinal real de um artefato. Erros de apontamento, mesmo ínfimos, podem falsear os resultados.

A reanálise dos dados do Hubble sobre Europa ilustra perfeitamente essas dificuldades. Os cientistas tiveram que levar em conta a incerteza sobre a posição exata da lua nas imagens. Um deslocamento de apenas alguns pixels pode criar a ilusão de uma emissão onde não há nenhuma. É por isso que os resultados devem ser confirmados por vários instrumentos ou métodos antes de serem considerados robustos.

Para evitar esses obstáculos, as futuras missões como a Europa Clipper embarcarão instrumentos projetados especificamente para o estudo próximo de luas geladas. Sobrevoando Europa a baixa altitude, eles poderão medir diretamente as partículas e os gases, sem as incertezas associadas aos telescópios distantes. A colaboração entre observações espaciais e missões in situ é a chave para dissipar as dúvidas.

Fonte: Astronomy & Astrophysics
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