Cédric - Quinta-feira 11 Junho 2026

🧠 O impacto do uso de brinquedos com IA no cérebro de nossas crianças

22 milhões de exemplares vendidos no mundo em 2025, dos quais 10 milhões apresentados como educativos. No entanto, ninguém pode dizer com certeza o que essas pequenas máquinas fazem ao cérebro de uma criança de três anos. As promessas comerciais são rápidas, a pesquisa, por sua vez, permanece estagnada.

Os brinquedos dotados de inteligência artificial generativa imitam a conversa humana. Eles deveriam se tornar companheiros, amigos, até mesmo professores particulares. Mas as primeiras observações realizadas pela Universidade de Cambridge mostram uma lacuna preocupante entre o marketing e a realidade das interações.



O que realmente se observa quando uma criança brinca com um desses robôs


A Universidade de Cambridge filmou 14 crianças pequenas interagindo com um ursinho de pelúcia conectado chamado Gabbo. Os pesquisadores constataram que o robô frequentemente confunde a voz do pai/mãe com a da criança. Resultado: a brincadeira social, essencial para aprender a cooperar e compartilhar, torna-se caótica.


O brinquedo também falha no que chamamos de "brincadeira simbólica". Quando um pequeno lhe diz que é hora de dormir, Gabbo simplesmente responde que não dorme, quebrando assim o imaginário. Pior ainda, uma criança de 5 anos que diz "eu te amo" ouve como resposta uma mensagem padronizada sobre o respeito às instruções de uso.

Os pesquisadores questionam a compreensão que as crianças têm da natureza real desses objetos. Uma criança pequena nem sempre distingue um ser vivo real de um algoritmo. Ela corre o risco de desenvolver uma relação dita parassocial, ou seja, um apego unidirecional e sem reciprocidade emocional verdadeira.

Riscos concretos para a privacidade e segurança dos mais jovens


Os ursinhos de pelúcia inteligentes embutem microfones, câmeras e, às vezes, reconhecimento facial. No entanto, nenhuma regulamentação específica controla esses dispositivos. Recolhas de produtos já ocorreram depois que alguns robôs proferiram comentários de caráter sexual com menores.

Łukasz Kamieński, bioeticista polonês, destaca que esse vácuo jurídico expõe as crianças a sérios desvios. Além das conversas inadequadas, esses brinquedos podem difundir desinformação ou propaganda de forma insidiosa, sem que um pai consiga controlar facilmente.

Os fabricantes não são obrigados a publicar os dados de treinamento de seus modelos de linguagem, nem as proteções de software. Os pais, portanto, ignoram o que o aparelho realmente grava, onde esses dados são armazenados e quem pode acessá-los. Uma opacidade total.

O que deveria ser feito para que esses brinquedos se tornem aceitáveis?


Os especialistas exigem uma rotulagem obrigatória, comparável às tabelas nutricionais dos alimentos. Cada caixa deveria indicar claramente o modelo de linguagem utilizado, a natureza dos dados de treinamento e os limites programados. Assim, as famílias poderiam fazer uma escolha informada.


Senadores americanos já interpelaram os fabricantes, lembrando que a segurança das crianças não deve vir depois do lucro. Mas, por enquanto, essas cartas permanecem sem efeito. Os pesquisadores insistem na urgência de realizar estudos longitudinais.

Enquanto a ciência não medir o impacto real no desenvolvimento cognitivo e emocional, a prudência se impõe. Os primeiros anos de vida são uma janela crítica durante a qual a interação humana autêntica alimenta o cérebro. Confiar essa missão a uma máquina sem reflexão seria uma experimentação em larga escala.

Para saber mais: O que é uma relação parassocial na criança?



Uma relação parassocial designa um apego afetivo unidirecional. A criança dá amor, confiança, confidências a um ser que não retribui nada porque não tem vida interior.

Com um brinquedo que fala, a criança pode acreditar em uma reciprocidade. Ela pode acabar se confiando apenas à máquina, em vez de a um adulto, e esperar conforto onde não há.

Os pesquisadores temem que isso prejudique o desenvolvimento da empatia e da regulação emocional, duas competências que se constroem através da troca verdadeira com um humano atento.

Por que a brincadeira simbólica é tão importante antes dos cinco anos?


A brincadeira simbólica é "fazer de conta": dar comida a uma boneca, colocar um ursinho de pelúcia para dormir, imaginar-se um super-herói. Ela permite que a criança represente o mundo e teste papéis sociais.

Esse tipo de brincadeira desenvolve a linguagem, o planejamento, a cooperação e a compreensão das emoções alheias. Uma criança que faz de conta aprende a lidar com situações que ainda não domina.

Se um robô se recusa a entrar nessa brincadeira (por exemplo, dizendo que não dorme), ele interrompe o aprendizado. A criança perde a oportunidade de experimentar, pois a máquina impõe uma lógica literal onde o imaginário deveria reinar.

Autor do artigo: Cédric DEPOND
Fonte: Journal of Medical Internet Research
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