Sondar as profundezas sob nossos pés representa uma empreitada árdua. Os cientistas se apoiam em pistas indiretas para compreender os fenômenos em ação a quase 3000 quilômetros de profundidade. É precisamente nessa fronteira entre o manto rochoso e o núcleo metálico que se desenrola uma parte essencial da vida do nosso planeta.
Pesquisadores cruzaram a análise do magnetismo fossilizado em rochas antigas com simulações computacionais detalhadas. Esses modelos permitem voltar no tempo por 265 milhões de anos para reconstituir o comportamento passado do campo magnético terrestre.
Imagem: Argonne National Laboratory / Flickr / CC 2.0
Suas observações demonstram que duas estruturas continentais, situadas sob a África e o oceano Pacífico, funcionam como pontos quentes gigantes. Essas massas de rocha sólida e extremamente quente perturbam a circulação do ferro líquido no núcleo externo. No entanto, essa circulação está na origem do campo magnético, à maneira de uma dinamo gigante.
Andy Biggin, que liderou esses trabalhos, esclarece que sob essas zonas quentes, o ferro líquido tende a estagnar. Essa situação gera contrastes de temperatura acentuados que imprimem uma assinatura no campo magnético. Algumas de suas características teriam permanecido surpreendentemente estáveis por centenas de milhões de anos.
Essa descoberta modifica nossa visão da história da Terra e poderia ajudar a interpretar melhor a formação dos antigos continentes, como a Pangeia, ou ainda a refinar os modelos climáticos do passado. As pesquisas continuam para decifrar mais esses sinais magnéticos que contam a evolução do nosso planeta.
A geodinamo: motor do campo magnético
O campo magnético terrestre é gerado por um processo chamado geodinamo. Ele tem origem no núcleo externo, uma camada de ferro e níquel no estado líquido situada a aproximadamente 2900 quilômetros sob a superfície. O movimento desse metal em fusão, combinado com a rotação da Terra, produz correntes elétricas na origem do campo.
Esse fenômeno é comparável ao princípio de uma dinamo de bicicleta, mas em uma escala planetária. O calor proveniente do núcleo interno sólido e o resfriamento gradual do planeta alimentam esses movimentos de convecção. O ferro líquido sobe, esfria e depois desce, criando um ciclo contínuo.
O novo estudo indica que esse sistema não é uniforme. A presença de estruturas gigantes no manto inferior altera a maneira como o calor é evacuado do núcleo. Essas perturbações locais moldam a circulação do metal líquido e, consequentemente, a forma e a força do campo magnético que dele resulta.
Fonte: Nature Geoscience