Cientistas detetaram vários açúcares no meteorito primitivo Orgueil.
Caído perto da aldeia homónima em 1864, este meteorito ainda não revelou todos os seus segredos trazidos do espaço, nomeadamente a presença dos blocos essenciais da vida que muito bem podem ter sido trazidos para a Terra por outros meteoritos, bem antes do aparecimento da vida.
Esta nova pista de que um "kit molecular de partida" para a química da vida poderá vir do espaço foi publicada na
Nature Communications.
Há décadas que os cientistas procuram nos meteoritos os ingredientes químicos que podem ter participado no surgimento da vida na Terra. Os meteoritos primitivos, de facto, semearam abundantemente a Terra muito cedo na sua história, principalmente durante um período chamado o Intenso Bombardeamento Tardio, há cerca de 4,1 a 3,8 mil milhões de anos.
Se os aminoácidos, blocos de construção das proteínas, e os ácidos nucleicos, os do ADN, são regularmente identificados em meteoritos, os açúcares, no entanto indispensáveis às moléculas da vida como o ARN, permaneciam surpreendentemente raros e difíceis de detetar. Esta ausência contrastava com as experiências realizadas em laboratório em condições que simulam o espaço e nas quais se formam facilmente açúcares complexos na presença das moléculas orgânicas básicas registadas no espaço.
À procura de novas pistas, cientistas do Instituto de Química de Nice (CNRS/Universidade Côte d'Azur) realizaram análises muito aprofundadas com técnicas avançadas num fragmento do meteorito Orgueil. Fragmento de rocha espacial muito antigo formado nos primórdios do sistema solar há cerca de 4,5 mil milhões de anos, esta condrita carbonácea caiu ao lado da aldeia homónima no sul de França em 1864.
Graças a um método analítico particularmente refinado, e nomeadamente a uma extração muito suave das moléculas orgânicas presentes nos fragmentos analisados, a equipa conseguiu identificar vários açúcares com cinco átomos de carbono, incluindo a ribose, componente chave do ARN, mas também a arabinose, xilose, licose e ribulose.
Estes açúcares poderiam obviamente ter resultado de uma contaminação do meteorito desde a sua chegada à Terra. Mas as análises excluem esta hipótese. De facto, estes açúcares são moléculas quirais que, no mundo vivo, só existem numa das duas formas ou enantiómeros. Ora, alguns dos açúcares identificados apresentam uma distribuição dita "racémica", ou seja, uma mistura equilibrada das duas formas espelho da molécula, característica de uma origem não biológica e, portanto, muito provavelmente espacial.
O estudo também sugere que estes açúcares seriam muito mais abundantes do que parecem. Os métodos de extração muito suaves implementados aqui para preservar ao máximo as moléculas mais frágeis, como os açúcares, subestimam fortemente a sua quantidade real no meteorito, onde interagem fortemente com os minerais que o compõem. Uma vez considerados estes vieses, as concentrações de alguns açúcares parecem comparáveis às dos aminoácidos presentes nas mesmas amostras!
Ao comparar os açúcares com os aminoácidos detetados simultaneamente na amostra, os cientistas reforçam a ideia de uma origem extraterrestre comum. O conjunto dos resultados sugere que os meteoritos podem ter trazido para a Terra primitiva um verdadeiro "kit de partida" muito diversificado de moléculas orgânicas prebióticas. Este estudo publicado na
Nature Communications traz novas pistas para o maior mistério que diz respeito à nossa Terra: o do aparecimento da vida.
Redatora: Anne-Valerie FOILLARD RUZETTE
Fonte: CNRS INC