Adrien - Segunda-feira 15 Junho 2026

🫗 Em Vênus, o fluxo de nossas torneiras terrestres é reproduzido por 6000 km

Em Vênus, uma imensa massa de nuvens de 6000 quilômetros sobrevoa o planeta, mas sua origem permanecia desconhecida até hoje. A chave está em um mecanismo familiar: o mesmo que observamos no fluxo da água de uma torneira em uma pia.

Essa formação de nuvens foi descoberta em 2016 pela sonda Akatsuki da agência espacial japonesa. Ela está localizada a cerca de 50 quilômetros de altitude na densa atmosfera de Vênus, e se estende ao longo do equador, com uma borda frontal notavelmente nítida. Os cientistas há muito tempo buscavam entender seu tamanho impressionante, sua velocidade e essa forma tão particular.


Um exemplo comum de ressalto hidráulico criado quando a água flui de uma torneira para uma bacia; onde a água atinge o fundo, primeiro ela é rasa mas rápida, depois, ao se espalhar, torna-se profunda e lenta.
Imagem: James Kilfiger/Wikimedia Commons/CC BY-SA 3.0


A resposta reside em um fenômeno chamado ressalto hidráulico. Assim como a água que flui de uma torneira para uma pia: no ponto de impacto, o fluxo é suave e rápido, depois, ao se espalhar, ele desacelera e se torna subitamente mais espesso, com uma borda nítida. Em Vênus, um processo semelhante ocorre com gás. Uma onda atmosférica do tipo onda de Kelvin se desloca para leste perto do equador. Ao desacelerar, ela provoca um ressalto hidráulico.

Esse ressalto gera então uma poderosa corrente ascendente de vapor de ácido sulfúrico. Esse vapor sobe até 50 quilômetros de altitude, onde se condensa em uma espessa camada de nuvens de ácido sulfúrico. Essas nuvens se formam então atrás da onda de Kelvin que marca a borda frontal. É a primeira vez que tal fenômeno é observado em outro planeta que não a Terra.

A atmosfera venusiana é muito diferente da nossa. Rica em dióxido de carbono, exerce uma pressão esmagadora de 92 bars na superfície. Além disso, está em super-rotação: gira em torno do planeta em quatro dias terrestres, enquanto a própria Vênus leva 243 dias para uma rotação completa.


Esta descoberta preenche uma lacuna em nossa compreensão da densa atmosfera de Vênus. Até agora, os modelos de circulação global ignoravam esse fenômeno. A equipe de pesquisa, liderada por Takeshi Imamura da Universidade de Tóquio, planeja integrar esse ressalto hidráulico em simulações mais completas. Trata-se de uma tarefa árdua, pois mesmo os supercomputadores atuais têm dificuldade em lidar com tamanha quantidade de dados.

Os resultados do estudo foram publicados em 24 de abril no Journal of Geophysical Research — Planets.

Fonte: Journal of Geophysical Research — Planets
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