As substâncias derivadas dos chamados "cogumelos mágicos", como a psilocibina, poderiam transformar o tratamento de transtornos como a depressão. No entanto, seus poderosos efeitos alucinógenos continuam sendo um grande obstáculo ao seu uso na medicina. Por isso, pesquisadores exploram versões modificadas dessas moléculas, com o objetivo de preservar suas virtudes terapêuticas enquanto atenuam os efeitos sensoriais intensos que as acompanham.
Em um estudo recente do
Journal of Medicinal Chemistry, cientistas desenvolveram cinco derivados químicos da psilocina, a molécula ativa produzida pelo organismo a partir da psilocibina. Sua abordagem consistia em criar compostos estáveis capazes de liberar o princípio ativo de maneira distribuída ao longo do tempo, uma estratégia que pode limitar as reações alucinógenas. Esses trabalhos baseiam-se na hipótese de que a ação nos receptores de serotonina, ligada aos benefícios, poderia ser separada dos efeitos psicodélicos, como indicaram os autores.
Entre os derivados examinados, um deles, denominado 4e, chamou a atenção por sua estabilidade e aptidão para liberar gradualmente psilocina. Testes em laboratório em amostras de plasma humano e modelos de absorção gastrointestinal validaram essas propriedades. Este composto mantém uma atividade notável nos receptores de serotonina, que desempenham um papel central na regulação do humor, ao mesmo tempo que sugere uma atenuação dos picos responsáveis por efeitos indesejados.
Testes em camundongos forneceram observações promissoras. Administrado por via oral, o composto 4e atravessou a barreira hematoencefálica e gerou no cérebro concentrações de psilocina mais modestas, mas mais persistentes do que com a psilocibina farmacêutica. Além disso, o comportamento dos animais mostrou uma diminuição marcante dos movimentos da cabeça, um indicador usualmente empregado para avaliar os efeitos psicodélicos em roedores. Essa redução ocorreu apesar de uma ativação contínua dos receptores de serotonina.
O mecanismo em jogo parece estar ligado à cinética de liberação da psilocina. Ao evitar aumentos súbitos de concentração no cérebro, o composto 4e poderia limitar as alucinações enquanto permite uma ação terapêutica prolongada. Segundo os pesquisadores, essa abordagem poderia aumentar a aceitabilidade dos tratamentos para os pacientes, que beneficiariam assim dos efeitos positivos no humor sem vivenciar efeitos sensoriais desestabilizadores.
As próximas etapas envolvem investigações mais aprofundadas para compreender o modo de ação preciso desses derivados e avaliar seu impacto biológico global. Antes de considerar testes clínicos em humanos, será necessário confirmar sua inocuidade e eficácia terapêutica a longo prazo. Essas pesquisas poderiam resultar em novos medicamentos mais acessíveis atendendo às necessidades de pessoas com transtornos mentais.
Fonte: Journal of Medicinal Chemistry