A falta de sono não provoca apenas fadiga, ela altera seletivamente certos circuitos da nossa memória social. No entanto, uma bebida que conhecemos bem pode reverter esses efeitos.
A memória social permite-nos reconhecer rostos e distinguir as pessoas que conhecemos. Sem ela, as interações quotidianas tornar-se-iam confusas. Os investigadores examinaram como a falta de sono afeta essa capacidade, focando-se na região CA2 do hipocampo, uma área chave para a aprendizagem e a memória. Esta região também está envolvida na regulação do ciclo vigília-sono.
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Nas suas experiências, os cientistas privaram ratos de sono durante cinco horas, depois deram-lhes água com cafeína durante sete dias. A cafeína bloqueia os recetores de adenosina, uma molécula que se acumula durante a vigília e reduz a atividade cerebral. Em seguida, registos eletrofisiológicos mediram a plasticidade sináptica no hipocampo, ou seja, a capacidade das conexões entre neurónios se fortalecerem ou enfraquecerem.
Os resultados mostram que a privação de sono altera especificamente a plasticidade na região CA2, enfraquecendo a comunicação entre neurónios. Isso traduz-se em défices na memória de reconhecimento social. Por outro lado, quando a cafeína foi administrada antes da privação, esses efeitos foram invertidos: a comunicação sináptica recuperou e a memória social melhorou. Notavelmente, a cafeína agiu de forma direcionada, sem hiperestimular outros circuitos.
Estas descobertas posicionam a região CA2 como um hub central que liga o sono e a memória social. Os investigadores indicam que a cafeína não se limita a manter-nos acordados: ela restaura mecanismos moleculares e comportamentais. Isso abre caminho para abordagens direcionadas para preservar a cognição durante distúrbios do sono ou o envelhecimento.
O estudo, publicado na
Neuropsychopharmacology, demonstra pela primeira vez um efeito seletivo da cafeína num circuito de memória. Os autores planeiam explorar mais detalhadamente como a cafeína influencia a consolidação e a recordação das memórias, e esperam identificar alvos terapêuticos para os distúrbios cognitivos relacionados com o sono.
Fonte: Neuropsychopharmacology