Aqui está um cenário que pode surpreender: uma pessoa em plena forma, desportista, com um bom nível de colesterol LDL e, no entanto, sofre um ataque cardíaco.
Este paradoxo pode ser explicado por uma partícula de colesterol pouco conhecida: a lipoproteína(a), ou Lp(a). Ao contrário do LDL clássico, esta molécula depende fortemente dos genes e escapa ao impacto da alimentação ou do exercício. Consequência: pode acumular-se silenciosamente nas artérias, aumentando o risco de acidentes cardiovasculares mesmo em pessoas saudáveis.
Para perceber porquê, vamos olhar para a sua estrutura. A Lp(a) assemelha-se ao LDL mas possui uma proteína adicional, a apolipoproteína(a). Esta parte torna-a mais viscosa e favorece a formação de placas nas artérias. Além disso, pode encorajar a coagulação sanguínea. Os estudos mostram que níveis elevados de Lp(a) estão associados a um risco acrescido de ataques cardíacos e acidentes vasculares cerebrais, independentemente de outros fatores de risco. Esta relação é contínua: quanto mais alto o nível, maior o perigo.
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Ao contrário do colesterol LDL, a Lp(a) não é influenciada pela dieta ou pelo exercício, mas principalmente pela hereditariedade. Os níveis fixam-se cedo na vida e permanecem estáveis. Este caráter largamente genético explica porque algumas pessoas desenvolvem doenças cardiovasculares apesar de um estilo de vida saudável. Fatores como a menopausa ou doenças renais podem alterar ligeiramente os níveis, mas o essencial é inato.
Atualmente, há poucas opções para reduzir a Lp(a). As estatinas, muito eficazes contra o LDL, não têm praticamente nenhum efeito sobre ela. Alguns medicamentos mais recentes, como os inibidores da PCSK9, diminuem-na modestamente em 15 a 30%. No entanto, uma nova classe de tratamentos promete uma redução espetacular. Utilizando o silenciamento genético, estas moléculas impedem o fígado de produzir Lp(a). Os ensaios iniciais mostram reduções de 80 a 90%.
Está a perguntar-se se deve testar a sua Lp(a)? Este teste não está incluído no perfil lipídico padrão. É necessário solicitá-lo especificamente. As recomendações internacionais aconselham uma medição pelo menos uma vez na idade adulta, especialmente em caso de histórico familiar de doenças cardíacas precoces ou de risco inexplicado. Como o nível é estável, um único teste é frequentemente suficiente.
Pode ser frustrante descobrir que se tem um nível elevado de Lp(a), porque não se pode modificá-lo facilmente. Mas é necessário considerá-lo como um indicador de risco global. Outros fatores estão sob o seu controlo: o colesterol LDL, a tensão arterial, o tabagismo, a atividade física, a alimentação e a gestão da diabetes. Otimizando estes elementos, reduz o seu risco cardiovascular total, mesmo que a Lp(a) permaneça elevada.
A investigação sobre a Lp(a) avança rapidamente. Se os ensaios clínicos em curso confirmarem que as novas terapias direcionadas diminuem os eventos cardíacos, o rastreio e o tratamento poderão tornar-se comuns. Entretanto, a tomada de consciência é um primeiro passo fundamental. Fale com o seu médico se tiver preocupações, especialmente com histórico familiar. E não se esqueça que as bases de um coração saudável continuam a ser os hábitos de vida que podemos controlar.
Fonte: The Conversation